Para o Rafael de amanhã

É um sono profundo esse. Que estranho. Não consigo acordar completamente. Aquela eterna preguiça de domingo de manhã, com os olhos quentes, o balanço entre o real e o sonho, o consciente e o inconsciente. Tô acostumando. O vazio do ambiente, sem som, sem cor, sem riso. O “novo normal” deve ser isso. Tudo bem. Eu aceito o que a vida tem para mim.

Engraçado como sempre tratei com bom humor todas as desgraças que me ocorreram na vida (e não que eu seja mais ou menos sofredor que ninguém, todos atravessam seus obstáculos), mas eu vejo que esse bom humor me deixou. O meu semblante pesa no espelho, parece que estou olhando para o Mike Tyson balançando os punhos em minha direção. O que eu faço?? Uai, sorri! Vai morrer mesmo! Os óculos me dão um charme. É uma barreira para os mais atentos notarem o que tem atrás.

Acho curioso esse temperamento que herdei de família... sorrir da própria desgraça, mesmo sem realmente ver nada de engraçado, é como uma “autoajuda” do subconsciente dizendo que tudo vai ficar bem. E fica mesmo! Eu sei que fica.

Quando saio vejo os mesmos rostos, a mesma igreja, as mesmas cores, a árvore seca. Procuro o Sol porque até hoje não sei de que lado ele nasce. Há sempre alguém passeando com o cachorro e sem nenhuma sacolinha na mão: “alguém vai pisar naquilo, que não seja eu” – penso comigo. Quando os pensamentos - antes de esperança, hoje de dor – vem, logo agradeço a Deus pelo dia. Você lembra disso, né? Sempre tem alguém na praça com cara de que viu o sol nascer por ali mesmo. Daí lembro mais uma vez de agradecer a Deus por não beber e por ter ficado sóbrio durante o inverno.

O inverno foi longo, viu? Veja aí se passou, porque daqui a previsão é de que perdure. Mas um dia ele acaba. Sim, ele acaba. O Sol também nasce na Islândia. Imagina em cima dessa minha cabeça aqui?

Não quero saber a respeito de fios brancos nessa barba, bicho! Essa semana notei que cresceram. Vai ficar difícil parecer que tenho 24 anos para o pessoal da Atlética.

Como um pão de queijo aí, divido com o cachorro, tomo meu cafezinho e me levanto. - Essa dor nos ombros – o corpo me alerta. Bem, a cabeça que repousava aqui era menos pesada do que encarar o mundo sozinho. Isso não me parece certo... É... eu posso até morrer pensando assim, mas enquanto estiver sentindo o peso do que Adão e Eva nos deixou, irei caminhar, mesmo ferido de morte. Quem se importa?

Na volta lembro onde o Sol está. Ele se põe de frente pra mim. Bonito. Olho o chão para não tropeçar, me ligaram e eu não atendi, cadê a minha chave? Cadê a carteira? Ai ai... está tudo fora do lugar que deveria estar, mas eu vou aprender. Eu sei que vou. 

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