Jabuticaba com Manga
As torrentes celestiais nos deram repouso e a brisa soprava suavemente pelo quintal balançando a jabuticabeira – apelidada carinhosamente como “filhotinha” pela mulher da casa. Sua dança movida pelo vento sempre me chamou a atenção, como um sedutor balé de Ana Botafogo, hipnotizado, e assistia àquela dança involuntária e suave.
Quando desvio o olhar,
sinto a brisa percorrer-me como que a me chamar para a dança. Não havia vento.
Apenas a inquietude de mover-me de onde estava. A “brisa sem vento” me agitou o
espírito. Lembrei-me do velho tupinambá de grisalha cabeça e pernas tortas como
alicate, sua imagem era insistente como a vontade de fixar os olhos na Filhotinha
que adornara o quintal tão adoravelmente.
Dias antes, tive a
notícia da internação do velho, aquele cearense octogenário que a tantas chagas
havia suportado! Suas idas e vindas ao hospital sempre inquietavam a todos, mas
essa era diferente, o vírus que migrou do Oriente o havia alcançado. Dessa vez,
antes de ir ao hospital, pesava-lhe o semblante e uma certeza que só a experiência
de toda uma vida e a sensibilidade espiritual aguçada, - além de seu pessimismo
característico e a rabugice da idade – poderiam proporcionar: Dessa vez era
sério.
Quando a brisa suave me
trouxe o Vô Cavalcante como o pouso de uma borboleta, me inquietou e passei a
andar como procurando algo pela casa, não tinha a sensibilidade espiritual do
velho, a tolice das ações mecânicas do dia-a-dia me levava a compreender apenas
comandos simples.
Quando claramente
entendi o que estava acontecendo ali.
Dirigi-me até o meio do
quintal e caí de joelhos, algo me dizia que alí me havia sido delegada uma
missão: “Ore pelo seu avô”! O coroa sabia das coisas! Se entre problemas no
coração e complicações na próstata em que se pensava que o fim da linha já
havia chegado só havia aquele medo caricato da morte e todos ficavam
preocupados, como nesse momento ele foi tão sereno?! Hum... exato! Ele sentia
que a hora havia chegado
Ao orar, coisa que já
me desacostumara até então, sentia o rugir do vento, que se tornara mais
intenso e movia a jabuticabeira forte e harmoniosamente para lá e para cá. Pedi
a Deus que perdoasse os seus pecados e recebesse a sua alma, seu espírito, no
Paraíso. Isto, tentando tirar uma casquinha do Criador: “mas se for a sua
vontade curá-lo (...)”.
Ao me levantar daquele
momento, senti paz.
No meio da tarde, umas
16:30, soube do falecimento do meu avô. Assustei-me. É estranho quando coisas
espirituais acontecem com alguém tão desligado quanto eu. Lembro-me de
estranhar o fato de estar em paz, como quando alguém querido vai fazer uma
viagem para a casa de alguém que você conhece e você liga para o anfitrião e
tem o seguinte diálogo:
- Cuida bem dele, hein?!
- Deixa comigo, rapaz!
Em sua despedida, tive
a sensação de que ali se plantava uma semente, e explico o motivo: há mais de
um ano não falava com o meu pai, mas ali o abracei e ouvi um:
- Lembra daquele aniversário dele em que ele
estava sozinho no apartamento e fomos para lá?
-
Lembro, pai. – respondi.
-
Você foi para lá com a gente, ele ficou feliz!
Qualquer diferença ou mágoa que guardamos como dois ranzinzas teimosos não tinha valor nenhum naquele momento, foi como esfregar sabão em um copo sujo com o veneno da tristeza. O filho do Cavalcante sucedeu o sacerdote que ali havia discursado e, com a pompa de um professor, ali deu mais uma lição.
À beira do esquife de seu pai, encobrindo as decepções que teve com o velho Cavalcante, meu pai exaltou as virtudes do nordestino que desbravou o Planalto Central em busca de oportunidade sem pestanejar! Até a cansativa teimosia foi vista com olhos de amor. Ali jazia um herói brasileiro, que saiu do Ceará para Brasília e posteriormente trouxe todos os seus irmãos para desfrutarem da terra que mana leite e mel, como na visão de Dom Bosco. A rudeza do patriarca não tinha importância, apenas suas virtudes.
Estávamos
todos abatidos naquele local, mas no meu interior, sentia paz, Deus estava
cuidando dele, e também cuidaria de nós.
Ao
fim daquele momento de ver o esquife descer à terra para cumprir o ciclo da
vida, alguns recobravam um pouco do senso de espaço e tempo. Foi quando percebi
que estávamos abaixo de uma vultosa mangueira, em que se pesavam os frutos.
Logo falei:
- Quando viermos visitar vamos comer manga que só!
-
Ai Rafa, só você mesmo para me fazer rir nesse momento! – Disse tia Cátia, em tom de
satisfação e alívio.
A
vida seguiu, e lembro-me de quando recebi a visita de duas irmãs, uma delas
pequena, e minha sobrinha, enquanto conversava com a irmã maior, via ali
brincando perigosamente duas pequenas sapecas! Balançavam como loucas na rede e
saltavam em direção à jabuticabeira caindo jogando-se no chão, e quando
preocupado, pensava em me levantar da cadeira para socorrê-las, as meninas se
levantavam de um salto!!
-
Vamos de novo!! – Diziam empolgadas.
Ali
se apresentara a mim o ciclo natural de nossa existência, no mesmo quintal em que
o vento da despedida me havia soprado, o som estridente da esperança gritava
alto aos meus ouvidos, e compreendi que a vida deve seguir. Aqui vive o Vô Cavalcante
como uma doce lembrança, além do DNA de gente brava, e aqui vive também a
esperança no futuro, teimosa como o velho tupinambá.

Que texto lindo! 👏👏👏👏👏
ResponderExcluirObrigado, minha amiga! ❤️
ExcluirCaracas que texto maravilhoso!! Parabéns Rafa 👏👏👏
ResponderExcluirObrigado, Paty!
ExcluirUau que texto maravilhoso 😍! Parabéns Rafa 👏👏
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