Jabuticaba com Manga



Uma tarde de sábado, domingo, segunda... nem sei! Os dias estão muito parecidos, quase iguais! Mas nesse dia específico o clima estava diferente, era o mesmo Sol, o mesmo céu azul da vida cotidiana, embora estivéssemos em meio às chuvas setembrinas de Brasília.

As torrentes celestiais nos deram repouso e a brisa soprava suavemente pelo quintal balançando a jabuticabeira – apelidada carinhosamente como “filhotinha” pela mulher da casa. Sua dança movida pelo vento sempre me chamou a atenção, como um sedutor balé de Ana Botafogo, hipnotizado, e assistia àquela dança involuntária e suave.

Quando desvio o olhar, sinto a brisa percorrer-me como que a me chamar para a dança. Não havia vento. Apenas a inquietude de mover-me de onde estava. A “brisa sem vento” me agitou o espírito. Lembrei-me do velho tupinambá de grisalha cabeça e pernas tortas como alicate, sua imagem era insistente como a vontade de fixar os olhos na Filhotinha que adornara o quintal tão adoravelmente.

Dias antes, tive a notícia da internação do velho, aquele cearense octogenário que a tantas chagas havia suportado! Suas idas e vindas ao hospital sempre inquietavam a todos, mas essa era diferente, o vírus que migrou do Oriente o havia alcançado. Dessa vez, antes de ir ao hospital, pesava-lhe o semblante e uma certeza que só a experiência de toda uma vida e a sensibilidade espiritual aguçada, - além de seu pessimismo característico e a rabugice da idade – poderiam proporcionar: Dessa vez era sério.

Quando a brisa suave me trouxe o Vô Cavalcante como o pouso de uma borboleta, me inquietou e passei a andar como procurando algo pela casa, não tinha a sensibilidade espiritual do velho, a tolice das ações mecânicas do dia-a-dia me levava a compreender apenas comandos simples.

Quando claramente entendi o que estava acontecendo ali.

Dirigi-me até o meio do quintal e caí de joelhos, algo me dizia que alí me havia sido delegada uma missão: “Ore pelo seu avô”! O coroa sabia das coisas! Se entre problemas no coração e complicações na próstata em que se pensava que o fim da linha já havia chegado só havia aquele medo caricato da morte e todos ficavam preocupados, como nesse momento ele foi tão sereno?! Hum... exato! Ele sentia que a hora havia chegado

Ao orar, coisa que já me desacostumara até então, sentia o rugir do vento, que se tornara mais intenso e movia a jabuticabeira forte e harmoniosamente para lá e para cá. Pedi a Deus que perdoasse os seus pecados e recebesse a sua alma, seu espírito, no Paraíso. Isto, tentando tirar uma casquinha do Criador: “mas se for a sua vontade curá-lo (...)”.

Ao me levantar daquele momento, senti paz.

No meio da tarde, umas 16:30, soube do falecimento do meu avô. Assustei-me. É estranho quando coisas espirituais acontecem com alguém tão desligado quanto eu. Lembro-me de estranhar o fato de estar em paz, como quando alguém querido vai fazer uma viagem para a casa de alguém que você conhece e você liga para o anfitrião e tem o seguinte diálogo:

- Cuida bem dele, hein?!

- Deixa comigo, rapaz!

Em sua despedida, tive a sensação de que ali se plantava uma semente, e explico o motivo: há mais de um ano não falava com o meu pai, mas ali o abracei e ouvi um:

- Lembra daquele aniversário dele em que ele estava sozinho no apartamento e fomos para lá?

- Lembro, pai. – respondi.

- Você foi para lá com a gente, ele ficou feliz!

Qualquer diferença ou mágoa que guardamos como dois ranzinzas teimosos não tinha valor nenhum naquele momento, foi como esfregar sabão em um copo sujo com o veneno da tristeza. O filho do Cavalcante sucedeu o sacerdote que ali havia discursado e, com a pompa de um professor, ali deu mais uma lição. 

À beira do esquife de seu pai, encobrindo as decepções que teve com o velho Cavalcante, meu pai exaltou as virtudes do nordestino que desbravou o Planalto Central em busca de oportunidade sem pestanejar! Até a cansativa teimosia foi vista com olhos de amor. Ali jazia um herói brasileiro, que saiu do Ceará para Brasília e posteriormente trouxe todos os seus irmãos para desfrutarem da terra que mana leite e mel, como na visão de Dom Bosco. A rudeza do patriarca não tinha importância, apenas suas virtudes.

Estávamos todos abatidos naquele local, mas no meu interior, sentia paz, Deus estava cuidando dele, e também cuidaria de nós.

Ao fim daquele momento de ver o esquife descer à terra para cumprir o ciclo da vida, alguns recobravam um pouco do senso de espaço e tempo. Foi quando percebi que estávamos abaixo de uma vultosa mangueira, em que se pesavam os frutos. Logo falei:

- Quando viermos visitar vamos comer manga que só!

- Ai Rafa, só você mesmo para me fazer rir nesse momento! – Disse tia Cátia, em tom de satisfação e alívio.

A vida seguiu, e lembro-me de quando recebi a visita de duas irmãs, uma delas pequena, e minha sobrinha, enquanto conversava com a irmã maior, via ali brincando perigosamente duas pequenas sapecas! Balançavam como loucas na rede e saltavam em direção à jabuticabeira caindo jogando-se no chão, e quando preocupado, pensava em me levantar da cadeira para socorrê-las, as meninas se levantavam de um salto!!

- Vamos de novo!! – Diziam empolgadas.

Ali se apresentara a mim o ciclo natural de nossa existência, no mesmo quintal em que o vento da despedida me havia soprado, o som estridente da esperança gritava alto aos meus ouvidos, e compreendi que a vida deve seguir. Aqui vive o Vô Cavalcante como uma doce lembrança, além do DNA de gente brava, e aqui vive também a esperança no futuro, teimosa como o velho tupinambá.

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