O Amor Verde



Era a minha cor preferida, embora eu não admitisse para não parecer clichê, pois sou palmeirense. Era a camisa de um herói da liga da justiça que eu amava, mas não gostava de admitir, pois era um negão apaixonado por uma mulher extremamente forte que voava, e eu me disfarçava com a tolice do super poder no dinheiro do Batman. Ela usava uma jaqueta verde. Meu Deus! Eu nunca havia visto aquilo na vida! Ela era negra. Quais as chances de um clichê de princesinha Disney ambulante como eu se interessar por alguém assim? Pois é, foi avassalador! Ela sorriu pra mim e fez piada com o a minha camisa do meu Super Virjão preferido, o Capitão América. Que sorriso enorme, que simpatia, que beleza!

Mas a verdade é que eu estava preso a clichês, portanto encontrei uma que se assemelhasse mais ao padrão para que pudesse arrastar a asa. A Lanterna Verde me serviria como uma ponte até a princesinha da Disney. Pouco a pouco fui percebendo que o meu padrão de realeza era outro. A verdade é que não me interessava pela Donzela presa na torre do castelo cercada de perigos, me interessava pela princesa espartana, cuja fragilidade feminina era percebida em gestos e conversas mais próximas, assentado debaixo de uma árvore, em um local improvável, percebi que estava ao lado de alguém especial, e que o Cupido já havia me acertado em cheio desde o primeiro sorriso.

Como reverter tal bobice juvenil? Disse a ela que estava interessado na moça de cabelos pretos, a qual eu não havia dirigido uma palavra sequer! Platônico demais, não? Pois é, disse "oi" para a princesa Disney e, adivinha? Isso mesmo! Criei um asco automático! Talvez já estivesse propenso a isso, por já estar apaixonado pela bela negra. Foi providencial.

Na mesma noite, estávamos todos em um local comum, estava com os amigos e lembro de parar tudo para dizer: "Olha lá! Aquela ali é minha amiga". Se movia com a graciosidade de uma bailarina e com a força de uma amazona, era alta, linda, radiante! Vestida de branco e dourado, com sorriso iluminado, olhos brilhantes. Pensei: é ela! Como pude ser tão bobo? Aquela mulher era perfeita! Me ajuntei a ela, a abriguei em minha capa durante a chuva, a aqueci em dias frios, me alegrei com sua escandalosa risada, me confortei em seu abraço. Me apaziguei ao som do seu canto. Em seus olhos vi amor, em meu peito ardeu uma chama que jamais pensei que sequer pudesse existir. A amei, como amo.

Hoje habitas apenas meus sonhos. Não estás mais a esquerda, como costumavas estar. Hoje me abraço e fecho os olhos para poder te encontrar. Te vejo no futuro, mesmo que no porvir. Me deixei golpear por inseguranças, tristezas, frustrações, dores. Me preocupei com onde deveria estar e não percebi que estava exatamente onde queria. Olhei o projeto com ansiedade. Não o construí  e esperei que se erguesse diante dos meus olhos. Tolo! O hoje se tornou mais sofrido sem você. O meu alento é poder fechar os olhos, juntar as mãos e ainda acreditar, construindo e plantando com lágrimas.

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