Rimas bobas de Caronte













Entre passos cambaleantes

Ébrio, tonto e distante

Em seu sorriso brilhante

Acalmo a vista em um instante.


Quando abro os olhos

Na escuridão me recolho

Permaneço em um fôlego

Enxugando o choro.


De um passado em cores

Trago aromas e sabores

Em meio aos presentes horrores

A paz na guerra em tambores.


Estava cantando a esperança

Quando me veio a lembrança

A solidão me alcança

E com as trevas, avança.


Vejo o cerco solitário

O sorriso contrário

Com o titubeio temerário

Ouço o som do canário.


Por que cantar o amanhã?

Eis uma bela manhã!

Como uma febre terçã

Há o assombroso divã.


Lembro-me da janela aberta

Sua concentração tão certa

De espírito, inquieta

A luz invade e me acerta.


Morte em vida, talvez

Permanecer e não estar com vocês

Há tempo para tudo, eu sei

Me entenda, eu jazo sempre às 6h


Foi um delírio, um oásis

Mas com o Criador, fiz as pazes

Sob o repúdio me trazes

Da dolorosa trilha rumo ao Ades.


Do abandono ao que é o que é

Nasceu a fuga ébria do que não é o que é

Vendo as costas da que é o que não é

O poço se fecha por quem poderia ser e não o é.


A eterna união foi relativizada

Muito orgulho, vaidade e a essência invejada

Cercado de serpentes que afagava

Suas costas vi, enquanto afundava.


Mas se cumprira a profecia

Seu grande olhar sereno me dizia:

Afastado seria,

Mas a Graça me bastaria.


Quão distante fui entre os montes,

Até abracei o velho Caronte

Que aos risos despediu-me pré-ponte

Pois ainda havia horizonte.

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