O Fundo Falso

Infelizmente nossa sensação de insuficiência em atender a todas as demandas nos leva, em alguns casos, a abafarmos quem realmente somos em um porão cada vez mais profundo, para mostrarmos aquilo que gostaríamos de ser, embora não tenhamos estrutura para isso, portanto, não é quem somos, mas quem estamos e sem nenhum constrangimento, cria-se uma personalidade artificial, a figura bela que expomos ao mundo, o filtro de Instagram da vida, o Photoshop das emoções. Aquelas capas de falsidade que vão se recobrindo: quando se esgota o efeito de uma, surge outra, um ciclo vicioso. O falso sorriso, as concessões, as anulações de personalidade que demonstram a natureza transitória da nossa personalidade – inclusive, falo tudo em primeira pessoa pelo fato de me incluir neste fenômeno.

É uma guerra interna, se levarmos em consideração o quão é satisfatório agradarmos a alguém, na intenção de contribuir para algo, mesmo que usando a magia de uma das capas de falsidade que nos revestem, pois por um contrato social imaginário, entramos em um consenso de que é melhor ouvir uma risada e um tapinha nas costas, do que aquela velha voz da consciência (de novo ela) nos dizendo o quão danoso é reprimirmos o que realmente somos.

Por consequência, nos aproximamos do cidadão do futuro que tanto romantizamos ao longo da vida: um ser evoluído, um domador de elementos, cônscios das vantagens e desvantagens de usufruir o saber sobre o bem e o mal... Na verdade, não é assim, ficamos mais próximos das máquinas nos tornando cada vez mais fiéis a uma realidade programada e padronizada e quando agrupados, sequer temos como nos distinguir dos demais. Recobrimos tanto a nossa personalidade com as malditas capas para nos adaptarmos ao ambiente, que sufocamos a nossa verdadeira essência, privando-nos de viver na plenitude de ser, apenas existindo. Pense em uma iguana contrabandeada dentro de uma mala: Ela é enrolada em faixas e colocada dentro de um cano de PVC. Então este cano é tampado e colocado em um fundo falso. Depois, é postada ou o pacote é enviado pelo correio, que seja. Mas quando ela está totalmente livre em seu ambiente, sem ter que se preocupar com este “fator a mais” na luta pela sobrevivência, ela vive.


É o que fazemos com a nossa verdadeira personalidade. Para quem vê o exterior da caixa está tudo normal, é apenas uma caixa, elas são todas iguais e não há nada de estranho. Quem vai imaginar que debaixo daquilo tudo existe alguém tão precioso sufocado e agonizante? Ninguém. Até que passamos pelo raio-x e percebemos a perversidade da ocorrência. O problema é que não existe esse raio-x quando o indivíduo sufocado é a nossa essência. A solução precisa vir de dentro, pois de alguma forma, o núcleo desse monte de falsas personalidades é conivente em ser subjugado, pois parece ser mais satisfatório ser um arremedo de Super-Homem, ou a Mulher Maravilha, do que trazer a nossa verdadeira personalidade para a superfície. Devemos entender uma coisa, o “S” de Super-Homem, em Krypton pode até significar “esperança”, mas no nosso contexto, o traduzimos para “S” de “Safado” e o “M” de Mulher Maravilha para “M” de “Mentirosa”.

Que tal buscar ser o melhor que pode? E isso se torna mais fácil quando quem se move somos realmente nós mesmos e não a capa da aceitação do senso comum, que nos dita regras e traça o caminho de uma forma genérica, em que apenas somos amarrados e enviados para um caminho pré-estabelecido que nos suprime do direito de decidir. O que deve nos interligar de forma autêntica a um propósito ou a pessoas diferentes de nós, é a essência de quem somos, pois ela resiste ao tempo, aos sofrimentos, aos abandonos, as alegrias, tristezas ela é e não está (como é o caso das capas que vestimos para as diferentes situações da vida) e todos estes reveses devem ser encarados como aprendizado. Quando se é verdadeiro, mantem-se amizades (se o outro também é e não está), mantem-se a disciplina, caminha-se de forma mais leve. Seja essa pessoa horrível, medrosa, mentirosa, pecadora, traumatizada que você é, arranque essa capa de homem de aço que não pode falhar e precisa agarrar o mundo com as próprias mãos, dê esta oportunidade a si e abra o caminho para a pessoa maravilhosa, corajosa, verdadeira, igualmente pecadora e bem resolvida que pode ser. Conheça-te a ti mesmo (Sócrates) e ame a si mesmo, para que possa amar aos outros (Mateus 22:39). Aí dentro existe algo bom, busque embaixo dessas capas, máscaras, rebocos, ou como você preferir chamar. Vá para a superfície!

Comentários

  1. Caramba, muito inspirador. Parabéns!

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    1. Legal! É difícil sair do fundo dessa caixa, mas nos desprender de alguns estereótipos que aceitamos carregar ao longo do tempo é importante para seguir em frente..

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  2. Li, li mais uma vez e confesso que esta é a quarta vez que leio. É maravilhoso ver que todas essas palavras vem de alguém "real", que não são expressões pra likes ou reposts. É vivo, palpável, comum a todos, é humano! Parabéns meu Amor, você consegue transcrever seu coração aqui!

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    1. Você me conhece bem. Obrigado pelo comentário, meu bem!

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  3. Oi Rafael, hoje mesmo eu estava pensando nisso, em tudo que aguentei até aqui para evitar problemas externos, quando na verdade, os problemas internos se tornaram muito mais graves, inclusive foram somatizados e até hoje me assombram. Busquei na ciência humana e me vi limitada, mas quando me encontrei em Deus, consegui viver em paz com a minha essência e parar de usar máscaras para o agrado de alguns. Nossa graduação pra mim, foi também uma escola de amor em verdade/natureza, não pelo que tínhamos, mas pelo que éramos, sem essas máscaras. Obrigada pela oportunidade que vocês me deram de ser eu mesma em suas companhias. Saudades dos meus irmãos mais novos s2

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