Os dois lados do ano da morte



Há tempos tenho uma coisa em mente que não sai de jeito nenhum. Não sei se por padrão do TDAH, ou um pé no autismo, como diz uma de minhas melhores amigas, mas tenho pensado nisso assim que acordo, durante o dia e quando vou dormir: “No ano em que o rei Uzias morreu, eu vi o Senhor assentado num trono alto e exaltado, e a aba de sua veste enchia o templo. Acima dele estavam serafins; cada um deles tinha seis asas: com duas cobriam o rosto, com duas cobriam os pés e com duas voavam.” (Isaías 6:1-2)

Contextualizando o acontecido, o Reino do Sul, Judá, acabara de perder o seu rei Uzias, descendente de Davi e membro cativo da linhagem que culminou em Jesus. Pouco se sabe a respeito dele, existem poucas referências que proporcionem a dimensão de quem foi, mas sabe-se que Uzias reinou em um período de prosperidade do povo de Deus. Assumiu o reinado ainda jovem, aos 17 anos. O texto de 2 Crônicas, capítulo 26, resume o que foi a sua ascensão e queda. Começou fazendo “o que o Senhor aprova, tal qual o seu pai Amazias” e terminou a vida com lepra até o dia de sua morte, em consequência de fazer o que desagrada a Deus.

Um dia desses, uma pessoa querida por nossa comunidade disse que não importava o quanto pregássemos para alguém, ou o quanto gastássemos a nossa energia tentando convencer alguém do erro se a pessoa não recebesse aquele olhar vindo da parte de Cristo, como Pedro recebeu. Obviamente isso me perturbou, porque as circunstâncias desse olhar são terríveis! Cristo estava sendo martirizado enquanto aquele que dizia que jamais o abandonaria o negava por 3 vezes com medo de ser entregue à morte com ele. Quando este olhar se fixou nele, Pedro reconheceu sua traição e chorou amargamente. Aí o olhar de Cristo, que faz cair por terra toda a segurança que o homem tem em si mesmo e começa a se enxergar como o ser imperfeito que é, e ser transformado por Deus.

O que isso tem a ver com Isaías? Bem, o título do capítulo 6 é “O chamado de Isaías”. Coincidentemente, também após o luto mediante a morte do rei, o profeta tem a visão do Senhor assentado em um alto e sublime trono. Imagina o quão aterrorizante foi ver as portas tremerem ao som do canto daqueles que nem eram o centro da visão? Os anjos não eram dignos sequer de contemplarem a glória do Senhor, eles tinham seis asas, voavam apenas com duas delas, pois com duas cobriam o rosto e com outras duas cobriam os seus pés. Isaías gritou: “Ai de mim! Estou perdido! Pois sou um homem de lábios impuros e vivo no meio de um povo de lábios impuros; os meus olhos viram o Rei, o Senhor dos Exércitos!” (Isaías 6:5).

Tal como Moisés, que após a morte do rei do Egito, que era misericordioso com o povo de Deus, foi chamado para que libertasse o seu povo e cobriu o rosto, em reconhecimento à sua natureza impura. Parece um padrão, não é mesmo? Diante da morte, o Senhor se manifesta para a iniciação de um novo ciclo. O Deus de amor e misericórdia nos ensina a ser fiéis de maneira dura, diferente do que a nossa geração está acostumada a acreditar. Ele não nos louva, e sim, repudia os nossos pecados e se ira quando, deliberadamente, ofendemos a sua santidade, abandonamos os seus direcionamentos e seguimos rumo à maneira que encontramos de fazer tudo conforme nossa própria vontade.

Deus diz: “Quem enviarei? Quem irá por nós?”. “Eis-me aqui, Senhor! Envia-me!” – Isaías responde extasiado! Mas quem mais poderia ir naquela situação? A quem poderia ser comissionado o dever de ser o profeta que detalharia o que iria acontecer centenas de anos a frente? Só havia Isaías ali naquele ambiente que destoava dos demais. Ele não era Serafim, era um homem. Pedro não era um comum, era alguém que convivera com o Salvador e até falava parecido com Ele! Mas isso não importa. Não importa quem você seja. Não importa de onde veio, ou onde habita, como se parece, roupas que veste. Quando receber o chamado, esteja pronto.

O ano de 2022 foi um ano de morte. A desgraça absoluta atingiu cada átomo da minha existência! Diariamente tentando equilibrar o desejo de ser melhor para a minha família com o desejo de morrer, embriagado com o misto explosivo de depressão, álcool e falta de Deus. Perdi um tio amado. Pouco tempo depois meu casamento acaba, uma prima tão amada se vai. Reprovo por faltas em uma disciplina na universidade, abandono cursos, perco todos os amigos próximos, sou humilhado. Estou no fundo do poço e aqueles que poderiam me resgatar, fecham o poço e me abandonam. É o fim.

Até que sou apresentado a alguém de quem ouvira falar: Tiago. Apesar de ele ter morrido à espada há quase dois mil anos atrás, me deixou uma mensagem:

“Meus irmãos, considerem motivo de grande alegria o fato de passarem por diversas provações, pois vocês sabem que a prova da sua fé produz perseverança. E a perseverança deve ter ação completa, a fim de que vocês sejam maduros e íntegros, sem que falte a vocês coisa alguma” (Tiago 1: 2-4).

Bem, eu não estou no nível de tal plenitude, mas compreendi o que ele disse. Quer dizer, começo a assimilar o que é uma gota em um oceano (e eu tenho um medo grande de mar aberto). Como compreender tal dicotomia? Alegrar na provação, o chamado em meio ao luto, reconhecer a miséria e ser exaltado por Deus, ser abandonado pelas pessoas e encontrar refúgio, perder tudo e ganhar tudo, ser completamente esvaziado e ser cheio, ser massacrado e ser erguido?

Ser purificado pelo fogo.

Se lendo esse texto, você esperava obter respostas, lamento! Trago perguntas. As quais te convido a fazer também. Não a mim! Pois sou homem de lábios impuros e habito no meio de um povo de impuros lábios e, por mais que eu pense estar fazendo o certo, nego a Cristo reiteradamente. Mas pergunte a aquele que é perfeito: Jesus Cristo, Nosso Senhor.

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